Os Ricos Estão Sempre se Justificando

Desde a minha primeira aula de história, notei que os ricos estavam sempre querendo se justificar pela vida que levavam. A desconcertante pergunta que todo o resto do mundo não detentor de riqueza e poder fazia era “Porque você tem tudo e eu, que sou igual, não tenho nada?”

No início da civilização, a saída mais utilizada era a boa e velha legitimação divina que é perceptível desde os antigos egípcios até os últimos reis absolutistas da Europa. Ou seja, Deus assim quis e quem somos nós para questionar seu desígnio? Afinal de contas, no final todo mundo vai para o paraíso mesmo e não precisamos ficar de birra agora. (Leia-se Deus mandou e fodam-se vocês) 

Com a secularização do mundo, essa explicação parou de ser aceita e o questionamento voltou com tudo. Para contornar a crise, até as religiões, como a cristã (calvinismo) teve que se adaptar. Neste momento, o argumento era que as pessoas são diferentes devido ao seu mérito pessoal. Se você se esforçou, estudou, trabalhou, você vai ter o seu retorno e o “contrário” também era verdade. Se você é pobre e sem influencia, você deve ser um vagabundo, bêbado e ignorante. (Leia-se eu sou melhor e fodam-se vocês)

Mesmo assim, com o passar do tempo, mesmo esse modelo aparentemente justo, democrático e inclusivo foi posto em cheque, pois claramente acontecia das mesmas famílias de sempre continuarem a frente dos seus negócios privados. Os pobre simplesmente não conseguiam entrar no mercado e voltaram com a sua velha pergunta: “Porque vocês tem tudo e eu nada?”

(Em alguns dos livros do Bukowski ele, que é um dos exemplos mais estranhos de mudança de vida, se questiona como tantos poetas horríveis que ele conhecia se mantinham, até descobrir que eram bancados por suas famílias ricas. Faço também esse questionamento sobre a atualidade, principalmente dentro da nova moda que é o empreendedorismo.)

Claro que muitos – ricos – hoje se justificam através da bandeira do mundo melhor. Aparentemente, viver 10 anos numa tribo africana tomando picadura de mosquito é o novo ingresso para o céu e evita toda e qualquer necessidade de justificativa. Mas essa é a minoria menos interessante que preferiu se eximir da explicação.

Já a maioria foi em frente e buscou contornar a situação chegando a raiz da questão: “O problema é que a minha empresa é minha e não tenho como deixar um pobre entrar nela. Mas, e se eu criar algo que seja “aberto” para qualquer um entrar?”.

Mais uma vez eles conseguiram, criaram algo que chamamos hoje de Bolsa de Valores. Nome muito fortuito e é como o conta da carta roubada do Poe. A melhor maneira de deixar algo escondido e protegido é deixar tão exposto e aberto que ninguém vai suspeita.

Agora, os pobres tiveram que se calar de vez. Afinal de contas, hoje, o trabalho num bolsa de valores é considerado honrado e digno. Mais do que isso foi glamourizado durante décadas com filmes e histórias incríveis de sucesso e inclusão. Os ricos criaram a ferramenta mais maravilhosa para evitar perguntas indiscretas do pobres. Ela é a tão grande que parece que sempre existiu e dita tão importante que nunca poderá deixar de existir. É um mercado global de troca de dinheiro. Logicamente, de ricos para ricos. 🙂

A Bolsa habilita que qualquer rico fale “Eu sou rico, mas trabalho para caralho para conseguir isso. Veja como fiquei careca e broxa.”. Incrivelmente, esses caras, 99% das vexe,s moram nos bairros mais ricos da cidade, assim como seus pais e seus avós. Incrivelmente, bancos de investimento e assets, ficam nos melhores escritórios empresariais.

E o negócio melhora, pois para provar para o mundo que esse é um sistema totalmente inclusivo, vende-se a riqueza do dia para a noite e contam-se histórias periódicas de pessoas que começaram como Boys e subir para o cargo máximo. Isso aplaca os ânimos de todos e permite que o mundo durma tranquilo com a certeza de que tudo mudou para ficar igual.

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