O Idiota

Mais um livro do Dostoievski. Mais uma viagem louca na cabeça de personagens complexos. Mais um mergulho de 400 páginas para contar um dia de história. É, tem que ter estômago e uma vontade muito grande de viajar na maionese para ler esse tipo de livro. Bom, eu gosto.

Logicamente, devido à profundidade dos personagens e diálogos é muito difícil tentar falar de um assunto ou outro dentro do livro, por isso opto agora por refletir um pouco sobre o personagem principal. Ele é um cara epilético, que passou boa parte da vida na pobreza, que não tem nenhum talento especial aparente e não conhece ninguém. Na maioria das cenas, ele é o último a reagir às coisas que acontecem, não parece se importar de ser enganado e acredita nos seres humanos com toda a sua alma. Em outras palavras, ele é um idiota.

Apesar dessa idiotisse superficial, ele é o personagem mais bondoso, esperto e inteligente. Possui uma opinião forte e profunda sobre muito temas e consegue ser amado por praticamente todos à sua volta. Ora, esse estado de simplicidade me lembrou muito as questões do “lenho tosco” ou “bloco” taoísta. O estado onde você não é nada e, por isso, pode ser tudo. O estado máximo de eficácia!

Mais do que isso, toda essa postura perante a vida me lembrou de um post antigo meu sobre “Os Nascidos na Disney“. No qual, eu, pela primeira vez na vida, me dei conta das nossas interpretações rápidas, superficiais e clichês da vida, sem uma análise mais completa. E ainda mais, comecei a pensar em todas as outras coisas que nos deixam tristes ou felizes na vida e cheguei a conclusão que: o conceito de bom e ruim fode a nossa vida. Nascido de uma premissa de que existe um caminho certo a ser seguido (ético e moral) e reforçado pela Igreja com a idéia de que existe uma “verdade” universal. Além disso ser de uma prepotência absurda, ainda é o caminho certo para a decepção e bloqueio do aprendizado.

Imagine uma criança que cresce sabendo que existem coisas boas e ruins na vida. Quando algo que ela quer que aconteça acontece, ela fica feliz. Quando algo que ela não quer que aconteça acontece, ela fica triste. Porém, nós não temos muito controle sobre isso. E, pior, não conseguimos prever os impactos das coisas na nossa vida, nem de longe. Na verdade, deveríamos querer viver a vida de peito aberto e ouvir o grito dos mortos (na minha cabeça eles gritam “viva a vida!”) tentando o máximo possível aprender sem magoar os outros ao invés de querer controlar e classificar as coisas para elas serem ou boas ou ruims. Até porque, aprendemos muito quando as coisas não sãem como planejamos!

Devemos nos manter mais idiotas!

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