Os Irmãos Karamazovi

Depois de 3 anos lendo direto acho que estou entrando em outro nível de leitura. É extremamente chocante para alguém que, como eu, está acostumado com a literatura padronizada, rasteira e comercial de hoje, ler essa enorme obra de 1200 páginas.

Uma das primeiras coisas que me chamou a atenção é incrível capacidade intelectual de Fiodor Dostoievski, o autor do livro. Nunca tinha lido nada assim. Cada personagem, cada cena e cada diálogo seriam o suficiente para fazer um livro inteiro. O nível de detalhamento da situação e dos personagens é simplesmente inacreditável, você quase consegue prever as ações e falas deles por ter ficado tão intimo de cada um deles. No ponto psicológico, este é um livro simplesmente único. Li em algum lugar que o próprio Freud considera um dos maiores livros já escritos.

Como acontece com os grandes livros, não tenho a mínima pretensão de fazer uma avaliação extensa. Até porque tenho certeza que não entendi quase nada, apenas o que estava gritando na minha cara, quando muito.

O personagem que mais me chamou a atenção é o irmão do meio, Ivan Karamazov. Tenho a impressão que Dostoievski projetou várias de suas ideias através dele. Em particular, acho que o artigo do “Grande Inquisidor” é genial! Para os curiosos: se trata de uma ficção na qual Jesus volta a terra no meio da inquisição espanhola e é preso. Daí, segue o diálogo Dele com o Grande Inquisidor. Não existe nada igual!

Em outro momento, me ocorreu que a capacidade de escrever um livro assim é realmente o que diferencia, em última instância, os homens das máquinas. Na mesma hora eu me lembrei do Versatil (acho que é esse o nome), a máquina que fazia músicas automaticamente no livro de Orwell, 1984. Sem dúvidas, a máquina tem a métrica mais perfeita e correta possível. Provavelmente, as músicas são equilibradas e agradáveis. No entanto, nada disso é humano. E nada disso vai substituir o olho humano, que vê além da carne e além do real. Só uma pessoa como Dostoiesvki consegue captar a vida e as pessoas em todos os seus detalhes!

Mais ou menos na mesma linha, me parece que este tipo de livro prova que os seres humanos tem alguma esperança. Prova que apesar de todas as evidências contrárias nós podemos nos relacionar uns com os outros, nos conectar uns com os outros e, quem sabe algum dia, trabalharmos todos juntos para algo comum e torne a vida melhor (o que quer que isso signifique!). Digo isso, pois é simplesmente fascinante que um livro escrito por um russo no início do século passado, consiga influenciar a vida de um brasileiro de 24 anos. Claro que isso serve para muitas outras obras, mas essa me chamou a atenção por ser um grande retrato da sociedade russa e que ainda é MUITO real e provavelmente continuará sendo. No fundo, somos realmente todos farinha do mesmo saco.

Curiosidade: Os sobrenomes na Rússia flexionam em gênero e grau. Por exemplo, o Ivan é Karamazov. Os irmãos são Karamazovi. E se fosse feminino seria Karamazova. Essa vai para o guia dos curiosos!

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